Nasceu em Lisboa em 28 de outubro de 1952 e faleceu em Podentes (Penela), a 30 de abril de 2016.Dirigente associativo na Faculdade de Letras de Lisboa entre 1971 e 1974, foi docente do ensino secundário a partir de 1971, primeiro na Escola Industrial Emídio Navarro (Almada) e, seguidamente, na Escola Industrial Marquês de Pombal (Lisboa), onde, em 1974, integrou o GEPDES (Grupos de Estudos dos Professores do Ensino Secundário), organização de professores que, antes do 25 de Abril, contestava as condições de trabalho dos docentes. Delegado sindical na sua escola após a revolução, integrou a primeira lista candidata à direção do SPGL. Militante do PCP, afastou-se nos anos 90 para formar o movimento de esquerda Política XXI. Professor universitário desde o final dos anos 1990, cronista, escritor e investigador, PVG marcou uma geração de professores que com ele conviveram aquando da formação do SPGL.
Autoria: Isabel Cluny
Quando Paulo Varela Gomes nasceu, os pais já eram figuras relevantes da oposição ao regime. A prisão de ambos, em 1962, quando PVG contava apenas 9 anos de idade, constituiu um fator determinante na sua formação[1].
Em maio de 1968, ano em que o pai foi libertado após cumprir seis anos de prisão, Paulo frequentava o 6.º ano no Liceu Camões. Mais tarde, ao recordar o ambiente vivido na escola, contou que o reitor mantinha sob vigilância os alunos que levavam para o liceu informações sobre os acontecimentos em Paris. O jovem Varela Gomes, na altura, desvalorizava a agitação estudantil e reconhecia que, no seio da família, esses acontecimentos foram recebidos com algum distanciamento: “Em minha casa, também não ligámos grande coisa ao que se passava em Paris. Havia uma certa tradição, comum a muita resistência portuguesa, de considerar com desconfiança a chamada ‘Europa’. Não nos sentíamos europeus” (PVG, Maio de 68, quero lá saber).
Dois anos depois, após uma viagem à boleia pela Europa, durante a qual contactou com estudantes franceses, a sua perspetiva sobre o Maio de 68 manteve-se inalterada, defendendo perante eles que a luta dos antifascistas portugueses contra a ditadura representava o verdadeiro caminho para a Revolução.
Já no início da década de 1970, enquanto estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, destacou-se como dirigente associativo. A sua participação na Pró-Associação dos Estudantes inseriu-se num contexto de crescente contestação académica. Os protestos então promovidos culminaram no encerramento da Faculdade a 30 de novembro de 1972, na sequência da incapacidade do Conselho Escolar para conter os meetings realizados no átrio, onde Paulo Varela Gomes mobilizava os estudantes em torno de reivindicações como a reforma do ensino, a queda do regime e o fim da guerra colonial.[2]
A 8 de janeiro de 1973, o Conselho Escolar deliberou novo encerramento da Faculdade por um período de 90 dias, determinando ainda a suspensão de 15 estudantes, cinco dos quais pertencentes à Pró-Associação. Os estudantes do sexo masculino suspensos foram ainda mobilizados compulsivamente para a Guerra Colonial. Tal não se veio a concretizar graças à corajosa e persistente luta de alguns dos seus familiares, auxiliados pela Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Poucos meses depois, na madrugada de 1 de Maio de 1973, PVG foi detido pela PIDE em casa, tal como aconteceu com inúmeros outros dirigentes estudantis de Lisboa. Foi libertado semanas mais tarde mediante o pagamento de caução.[3]
Não tendo sido militante da organização estudantil do PCP (UEC), o seu ativismo estudantil esteve sempre ligado à ação desenvolvida por esta organização, tendo aderido ao PCP após o 25 de Abril.
Entre 1971 e 1974, apesar de ainda ser estudante, já exercia atividade docente. Nessa qualidade, e já na Escola Industrial Marquês de Pombal, participou nos Grupos de Estudos (GEPDES), uma organização de docentes que contestava as condições de trabalho dos professores contratados e que atuava nos limites da legalidade. A atividade desta organização levou à ameaça de instauração de um processo disciplinar a todos os professores envolvidos, em março de 1974, com vista à sua expulsão do ensino. No entanto, o processo não chegou a concretizar-se devido à queda do regime no dia 25 de Abril de 1974.
Aproveitando a liberdade entretanto alcançada, no dia 28 de Abril participou numa reunião com outros elementos do GEPDES para mobilizar a primeira Assembleia-Geral plenária de docentes de Lisboa, da qual sairia mais tarde a Comissão Instaladora Provisória (CIP). Em setembro, integrou a Lista A, candidata à direção do sindicato; contava então 21 anos.
Como representante do SPGL, em 1975, fez parte da mesa do Encontro Nacional de Trabalhadores-Estudantes. [4]Nessa altura já era conhecida a sua filiação no PCP.
Em 1978 concluiu a licenciatura em História e, durante a década de 1980, manteve-se como professor de História na Escola Veiga Beirão. Em 1988 terminou o mestrado em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa e, cerca de dez anos depois, em 1999, concluiu o doutoramento em Arquitetura na Universidade de Coimbra.
Integrando o corpo docente do Departamento de Arquitetura daquela universidade, lecionou como assistente e, posteriormente, como professor auxiliar ao longo da década de 1990. Nessa altura, afastou-se do PCP, sendo um dos fundadores do movimento Política XXI, do qual se distanciou pouco tempo depois. O seu legado seria marcado pela atividade como cronista e escritor, mas sobretudo como investigador de história da arte e da arquitetura.
Entre 1996 e 1998 e, posteriormente, entre 2007 e 2009, exerceu funções como representante da Fundação Oriente na Índia (Goa), mantendo simultaneamente uma intensa atividade letiva em diversas universidades. Académico de reconhecido prestígio e de percurso multifacetado, foi autor e apresentador de duas séries documentais produzidas para a RTP: O Mundo de Cá, dedicada às civilizações contactadas pelos portugueses aquando da sua chegada à Índia, e Malta Portuguesa, centrada nas relações históricas entre Portugal e Malta, bem como na evolução da fronteira entre Ocidente e Oriente desde o período das Cruzadas até à contemporaneidade.
No decurso dessas deslocações, o contacto com os católicos da Igreja indiana suscitou nele um processo de redescoberta da fé na qual fora batizado na infância. Conforme declarou pouco antes do seu falecimento, em 2015: “Um sacerdote católico interessou-se pelos meus livros e achou que se anunciava ali a presença de Cristo. Quando este sacerdote veio ter comigo, passámos várias semanas a encontrar-nos regularmente. Até que senti que era cristão, converti-me ao catolicismo e casei pela Igreja” (PVG, entrevista ao jornal i, 26.02.2016).
Quando da notícia do seu falecimento, na véspera dos 42 anos do Sindicato dos Professores, Paulo Varela Gomes foi lembrado “como um dos fundadores do SPGL, um dos que, antes de 1974, deu corpo aos ‘Grupos de Estudos dos Professores do Ensino Secundário’ – semente que possibilitou que em menos de uma semana após a revolução se tivessem criado os sindicatos de docentes com a força e a dinâmica que ainda mantêm. Ao Paulo Varela Gomes, ao seu espírito criativo, lutador e dinâmico, a quem os professores e o país muito devem, aqui fica a homenagem possível do sindicato que ajudou a fundar e cuja matriz ajudou a consolidar.”[5]
[1] Paulo Varela Gomes num texto intitulado- Aquilo que é necessário fazer –publicado jornal Público (7.01.2012) refere-se a este período da sua vida. Este texto faz parte de um conjunto de depoimentos em homenagem a João Varela Gomes (24.05.2024), no centenário do seu nascimento.
[2] Luís Farinha, A CRISE ACADÉMICA E O FIM DO REGIME DITATORIAL FASCISTA; Há 50 anos – 30 de novembro de 1972, FB, 29 de Novembro 2022.
[3] ANTT, PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 146, registo n.º 29039 1973-05-01
[4] ANTT, PT/TT/EPJS/SF/010/10686/001/007, 23.02.75
[5] https://www.spgl.pt/42-anos, 2.05.2016
