Nasceu em Lisboa a 6 de Junho de 1946 e faleceu aos 77 anos, no dia 22 de Maio de 2023, na mesma cidade. Militante estudantil antes de 1974. Professora do ensino secundário desde 1970. Militante sindical desde 1974 até 1980. Dirigente do SPGL em 1977. Integrou o movimento da escola anticapitalista e o sindicalismo de base.
Autoria: Isabel Cluny e Sandra Escobar
Eduarda Dionísio, filha do escritor, pintor e professor Mário Dionísio e de Maria Letícia Silva, ambos professores do ensino liceal, estudou no Liceu Francês e posteriormente ingressou na Faculdade de Letras de Lisboa onde se licenciou em Filologia Românica.
Com uma tradição familiar de oposição ao regime do Estado Novo, participou, antes do 25 de abril nos movimentos estudantis que contestavam o regime.
A sólida educação cultural que usufruiu desde jovem, despertou-a para a participação em atividades culturais, quando ainda estudava na Universidade. Em 1968, aos 22 anos, publicou, com Almeida Faria e Luís Salgado de Matos, o livro Situação da Arte, resultado de um inquérito feito a artistas e intelectuais portugueses. Também integrou então o Grupo de Teatro da Faculdade de Letras (1969), com Jorge Silva Melo, Luís Miguel Cintra e outros. Em 1971, já professora agregada no Liceu Camões, fundou com Jorge Silva Melo o jornal Crítica. Em 1972 editou o seu primeiro romance Comente o Seguinte Texto.
Comoprofessora de Português lecionou em várias escolas de Lisboa (Liceu Camões, Escola Secundária da Cidade Universitária, Escola Gil Vicente).
À data do 25 de Abril lecionava no Liceu Camões, onde se empenhou em criar o núcleo sindical da escola. Reconhecendo-se como uma das principais protagonistas do movimento sindical no Camões, Eduarda Dionísio afirmou ter sido “delegada sindical, dirigente sindical por pouco tempo (77/78), fundadora do núcleo de professores do Movimento de Esquerda Socialista [MES] (onde estive até Dezembro de 75), fundadora da CEC — Contra a Escola Capitalista — que reunia dezenas de professores sem partido e cuja atuação excedia a atividade sindical (a partir de 76 até à sua extinção em 1981, parece-me” (Dionísio et al. 1994).
A sua atuação, enquanto delegada sindical no Camões, foi constante entre 1974-1977.
Dando voz a um grupo de professores, organizados na lista B, em Julho de 1974, disputariam as eleições para o Sindicato de Professores da Grande Lisboa, sob o lema “Pelo Poder das Escolas”, inspirado nas lutas estudantis de 69.
A lista B concorria contra a lista A (“Por um Sindicato Único, Pela Unidade de Todos os Professores”), que consideravam herdeira da CIP (Comissão Instaladora Provisória), cujos membros, na sua maioria, seriam afetos ao PCP e cuja atitude “cupulista” criticavam.
Apesar da vitória da lista A, com 60% dos votos, a lista B, “Pelo Poder das Escolas” ao alcançar 35% de votos, surpreendeu todos, já que não contava com o apoio de um “aparelho partidário”.
Integravam a lista B professores como José Magno (cofundador da Associação dos Professores de História) e João B. Serra (professor de História, 1971-1977). Segundo as memórias de Eduarda Dionísio na lista participaram professores de quadrantes ideológicos diversos, que iam desde o P.S ao MRPP. Reivindicavam um sindicalismo de base, estruturado no poder das Assembleias Sindicais locais. Propunham-se a combater o modelo de escola capitalista, confrontar o Ministério da Educação e Cultura, defender os interesses dos trabalhadores do ensino e reivindicar a participação sindical na formulação das políticas educativas. Além disso, procuravam refletir criticamente sobre a verdadeira função da escola.
Em 30 de novembro de 1974, a dinâmica sindical no Camões foi desencadeada pela lista liderada por Eduarda Dionísio, que manifestava vontade de contrariar as primeiras eleições para a Comissão Diretiva Provisória (CDP) do sindicato (eleita em julho de 1974) em Lisboa (Ricardo 2016, 193).
Dos nomes dos professores que integravam a lista podemos destacar Manuela Ferreira[1]; Conceição Figueira[2]; Eduarda Dionísio; Gabriela Dias[3], João Manuel Barata. As suplentes indicadas foram: Maria da Luz Conde;Conceição Vidal;Fernanda Vieira e entre as proponentes podemos citar, entre outras: Maria Teresa Tudela, Maria José Ferraz, Maria Irene Teixeira, Maria Filomena Fino e Margarida Carneiro da Silva.
Assim, podemos concluir que as protagonistas da luta sindical e da gestão democrática no Liceu Camões foram jovens mulheres, professoras, que à época tinham cerca de trinta anos. No entanto, o protagonismo mediático coube sempre a Eduarda Dionísio, que em 24 de outubro de 1974, defendeu, na RTP, a necessidade de alargar o espaço escolar do Liceu Camões.
Cm efeito, com uma dinâmica sindical própria, o Liceu Camões quando reabriu no final de 1974, apresentava já profundas diferenças em relação ao seu passado. As turmas mistas surgiram pela primeira vez, a distribuição dos alunos por turma deixou de seguir os antigos critérios de seletividade, os horários passaram a ser feitos em função dos interesses dos alunos e a semana dos 5 dias tendia a ser uma realidade. Outra inovação foi a receção aos alunos, em reunião de turma (com professores e alunos), que se assemelhavam a assembleias onde se podiam discutir propostas, que depois de votadas e passavam a ser transcritas para atas.
Ora, este processo de gestão, que conferia maior autonomia às escolas, viria a ser um dos fatores responsáveis pela demissão de Vitorino Magalhães Godinho, segundo Ministro da Educação, após a Revolução de Abril.
Entretanto, no Camões, nos meses de Novembro e Dezembro de 1974, toda a comunidade educativa continuava a discutir sobre: saneamentos, avaliação, gestão, tipo de aulas, faltas ou, processos disciplinares, sob a orientação da lista B e da sua principal protagonista, Eduarda Dionísio.
No segundo período de 1975 as lutas estudantis e sindicais quase se confundiam.
A comissão sindical do Camões continuava a afrontar as orientações da CDP do sindicato, por entender que o perigo da “desagregação do Sindicato” era o resultado da inação desta. Entendiam que a ausência de pressão sobre o MEIC, quer no âmbito da colocação e recondução de professores, quer na defesa da gestão das escolas, tinha permitido que as posições “contrarrevolucionárias” ganhassem terreno.
Em suma, responsabilizavam a corrente sindical dominante na CDP por impedir uma mudança radical do ensino e um novo entendimento do sindicalismo. Paralelamente acusavam a CDP de aprovar, em 17 de dezembro de 1975, uns Estatutos que davam poder aos plenários em detrimento das assembleias de escola.
Algum tempo depois, as novas eleições para os corpos gerentes do Sindicato, realizadas a 25 de março de 1976, um mês antes da aprovação da Constituição de 1976, deram à lista D, conotada com o Partido Socialista,uma vitória inesperada. Porém, os conflitos internos no seio da direção, acabariam por dar origem a novas eleições em 1977.
Ora, a essas eleições apresentou-se também com o seu programa e com grande impacto mediático a lista B, cujos nomes, alguns já referidos, eram delegados sindicais do Liceu Camões, nomeadamente Eduarda Dionísio, João Manuel Barata, Helena Maria Delgado Alves, a que se juntaram, depois, Gualdino Nunes, Maria Adélia da Silva Melo, Maria Isabel de Oliveira Pacheco, todos com atividade sindical nas suas escolas entre 1974 e 1975.
Nos anos 1977-78 a lista B assumiu maior protagonismo na direção do Sindicato dos Professores.
O cargo de presidente da Direção do SPGL seria desempenhado por um independente, João Barroso. Também Eduarda Dionísio, seguida de José Magno e Rui Canário teriam um papel ativo nesta direção. Num texto publicado na Escola-Informação (nº120-Abril /Maio de 1996, 9), o próprio João Barroso esclarece a composição da lista e o “programa comum” elaborado, que congregava o pensamento de três áreas político-sindicais, que designou de “forças de esquerda” do movimento sindical.
Assumindo-se como independente das áreas políticas que constituíam a lista, João Barroso tinha a difícil tarefa de unir os docentes, independentemente da sua opção partidária.
Ora, os elementos da lista b, na direção do sindicato,mantinham uma posição crítica sobre a atuação sindical anterior, por entenderem que esta havia sido responsável pela desmobilização dos docentes e, em alternativa, propunham um sindicalismo de base, através da ação de comissões sindicais.
Apesar das vitórias das lutas sindicais empreendidas à época, a divisão ideológica no interior da direção ter-se-ia acentuado, nomeadamente no entendimento que as diferentes correntes tinham sobre a “contratação coletiva”, ou sobre os estatutos da Federação dos Professores. João Barroso, incapaz de obter um compromisso nestes aspetos e noutros, acabou por se demitir em novembro de 1978. Com ele 15 elementos dos corpos gerentes também se demitiram. Os membros da lista B deixavam a direção conjunta do SPGL.
No entanto, em 1979, a lista B voltaria a apresentar-se às eleições tendo então como cabeça de lista, João Serra, professor no Liceu Padre António Vieira, sendo o outro elemento, de novo, Eduarda Dionísio. Na mesma lista, mais uma vez, José Magno, professor no Liceu Passos Manuel e, pela primeira vez, nesta lista, surge Rui Vasconcelos, da Escola Secundária de Camões. O seu nome merece um destaque especial, pois no Camões foram poucos os professores, homens, que se envolveram tanto no sindicalismo, como na luta pela defesa da gestão democrática das escolas.
A partir dos anos 1980, com o retrocesso da gestão democrática escolar, o fracasso do projeto de uma escola anti-capitalista e o desaparecimento de um sindicalismo de bases, Eduarda Dionísio começou a afastar-se da atividade sindical, pois entendia que esta tinha perdido a sua capacidade de contribuir para a transformação social.
Nos anos seguintes, a par da atividade docente, Eduarda Dionísio teve uma presença ativa na cultura, quer como atriz, quer como cenógrafa e dramaturga, ou como tradutora e autora de textos.
Em 1987 ainda participou, como independente, na campanha eleitoral do PSR ao Parlamento Europeu.
Em 1994, foi uma das fundadoras da Associação Abril em Maio, cuja intervenção cultural até 2005, tinha por objetivo preservar a memória do movimento popular da revolução portuguesa.
Em 2008 fundou, com amigos e familiares a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, arquivo e associação cultural dedicada à memória de Mário Dionísio e cuja intervenção cultural livre e revolucionária, se propunha ser alternativa à intervenção cultural promovida pelas instâncias públicas ou privadas.
Eduarda Dionísio foi a “Voz do Camões”, enquanto sindicalista, mas foi também uma dinamizadora cultural persistente “amava a cultura e queria-lhe a marca de uma paixão revolucionária e intransigente na sua contraposição à rotina e à modorra. Queria fazer e fez” (Louçã, F, Esquerda.net, 23.05.23).
[1] MUESC, Professores, proc. 787.
[2] MUESC, Professores, proc. 828.
[3] MUESC, Professores, proc. 868.
