Nasceu em Lisboa a 6 de Junho de 1946 e faleceu aos 77 anos, no dia 22 de Maio de 2023, na mesma cidade. Militante estudantil antes de 1974. ProfesNasceu em 18 de Abril de 1932.Após a licenciatura em Histórico-Filosóficas lecionou no ensino particular. Em 1969 foi destacada para o gabinete do Ministro da Educação e aí se manteve, embora com outras funções, durante o ministério de Veiga Simão. A seguir ao 25 de Abril, ainda no Ministério da Educação, em 1975, participou no processo de unificação dos cursos gerais do ensino secundário, bem como na comissão responsável pela elaboração dos programas do ensino primário. Afastada do Ministério da Educação em 1976, lecionou na escola Patrício Prazeres e posteriormente na escola Secundária D. Luísa de Gusmão, onde se manteve como professora efetiva e orientadora da profissionalização em exercício. Por essa altura mantém atividade sindical intensa, tendo integrado os corpos gerentes da SPGL entre 1977 e 1985. Nos anos seguintes publica em coautoria dois livros que refletem a interação entre a prática docente e o conhecimento teórico sobre o sistema de ensino.sora do ensino secundário desde 1970. Militante sindical desde 1974 até 1980. Dirigente do SPGL em 1977. Integrou o movimento da escola anticapitalista e o sindicalismo de base.
Autoria: Isabel Cluny
Graça Fernandes nasceu em Vila Nova de Gaia, onde viveu até aos sete anos. Foi então que a sua mãe se mudou para Lisboa para trabalhar na empresa Bial, propriedade de um familiar do lado paterno. Em Lisboa frequentou o ensino secundário nos liceus D. Filipa de Lencastre e Dona Leonor e ingressou no início dos anos 50, no curso de Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Na universidade, reforçou a amizade com as suas amigas de longa data, Maria Emília Dinis e Maria Eugénia Reis.” Foi também na Faculdade de Letras que conheceu Rogério Fernandes[1], seu colega de curso, com quem se casou em 1955 e que foi seu companheiro ao longo de toda a sua trajetória pessoal e profissional; juntos tiveram três filhos.
Acabada a licenciatura lecionou no ensino particular nomeadamente no Colégio de S. Vicente de Paulo e nas salas de estudo de Alberto Ferreira[2]. Entretanto realiza Exame de Estado para poder concorrer a uma vaga de docente do ensino Técnico, tendo ficado colocada em Tomar.
A amizade com Helena Cidade Moura abrir-lhe-ia as portas para um destacamento no Ministério da Educação, com a incumbência de criar “salas de História” e centros de recursos equipados com materiais que permitissem melhores aprendizagens. Para o projeto o ministro José Hermano Saraiva disponibilizou, na altura, 400.000 escudos.
Na sequência desta atividade reuniu com diversos metodólogos a fim de os convencer a implementar metodologias diferenciadas.[3]
Foi durante o período em que exerceu funções no Ministério da Educação, que publicou, em coautoria com Manuela Simões e Gustavo de Freitas, o livro de leitura Gente Ousada, destinado ao 1.º e 2.º anos do ciclo preparatório, com ilustrações de Cipriano Dourado e, nesse mesmo período, voltou a colaborar com os mesmos autores na publicação de manuais de História e Geografia de Portugal para o 1.º e 2.º anos do ciclo preparatório.
Posteriormente, durante o ministério de Veiga Simão e sob a orientação de Rui Grácio operacionalizou o lançamento dos 3º e 4º anos experimentais, que visava o alargamento da escolaridade obrigatória.
A par da sua vida profissional, Graça Fernandes conviveu com vários intelectuais de esquerda entre os quais o seu marido Rogério Fernandes, Maria de Lurdes Pires Neves[4], Jorge e Mécia de Sena, Alberto Ferreira e Rui Grácio, Alves Redol, Carlos de Oliveira e Ilse Losa. Exemplo dessa convivência, com figuras diversas de oposição ao regime foi a dedicatória, ao casal Fernandes, feita por Luiz Pacheco, escritor próximo da corrente surrealista, na obra Exercícios de Estilo. Simultaneamente manteve contacto com figuras de matriz humanista, entre as quais se destaca a do Padre Manuel Antunes.
O 25 de Abril de 1974 surpreendeu Graça Fernandes em Oslo, quando visitava escolas a fim de se inteirar sobre novas conceções de escola.
Regressada a Portugal, manteve-se em funções, participando no processo de unificação dos cursos gerais do ensino secundário, ao integrar a equipa do Secretário de Estado da Orientação Pedagógica, Rui Grácio, convidado por Vitorino Magalhães Godinho, então Ministro da Educação. Nesse período, participou igualmente na comissão responsável pela elaboração dos programas do ensino primário. Na mesma altura (1974-76) o seu marido, Rogério Fernandes exerceu o cargo de Diretor Geral do Ensino Básico.
Em 1976, com a nomeação de Sottomayor Cardia para a pasta da Educação, ambos foram afastados das funções que então exerciam, situação que, à época, foi interpretada como um saneamento político. Graça Fernandes regressou ao ensino, na qualidade de docente de História, lecionando inicialmente na Escola Patrício Prazeres e, mais tarde, na Escola Secundária D. Luísa de Gusmão, onde desempenhou igualmente funções de delegada de disciplina e orientadora da profissionalização em exercício.
Em 1977, Graça Fernandes, integrou a Lista A como candidata à direção da SPGL. A descrição que acompanhava a sua candidatura salientava o seu percurso como especialista nas áreas do ensino e o exercício da docência. Dois anos depois surge na mesma lista como candidata a membro do Conselho Fiscal. Ora, o programa da lista A em 1979 tem como preocupação “dotar as escolas de um corpo docente estável e profissionalizado” e pela primeira vez há um plano de ação sindical que destaca como objetivo primordial “a formação de professores”, um tema em que Graça Fernandes está particularmente à vontade. Entre 1981 e 1983, voltou aintegrar a Lista A, exercendo o cargo de vice-presidente do Sindicato. Nesse período, destacou-se pela sua participação em ações de formação contínua de docentes, atividade que acumulou com as funções de delegada da disciplina de História na escola onde lecionava, orientadora de professores, bem como com uma ativa participação cívica na Assembleia Municipal de Lisboa.
A lista A voltaria a concorrer em 1983-85, sendo Graça Fernandes candidata à mesa da Assembleia Geral do Sindicato. No biénio seguinte, contudo, Graça não surge como candidata na lista A.
Nesses anos, frequenta o mestrado em Educação na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, tendo como colegas de curso Maria Emília Diniz e Teresa Cottinelli Telmo. Assim, quando, em 1988, a Federação Nacional de Professores fundou o Instituto Irene Lisboa, com o objetivo de promover a formação contínua de professores, Graça Fernandes surge como uma escolha natural para formadora e diretora do centro, assumindo também o cargo de vice-presidente.
Recordando esses anos de sindicalismo ativo, Graça salientou a importância de um grupo de sindicalistas com as quais na altura estabeleceu uma relação profissional e de amizade profunda: Lurdes Silva, Ana Carita, Rosa Serradas Duarte.
De facto, viria a publicar, em coautoria com Ana Carita, a obra Indisciplina na Sala de Aula, dedicada a uma problemática que, nos anos noventa, inquietava muitos docentes. Tratava-se no entender das autoras de “um exemplo notável da articulação entre teoria e prática, oferecendo pistas de reflexão e de intervenção” que permitiria a adoção de medidas mais conscientes para enfrentar os problemas. Em 2019, em coautoria com Tavares Emídio, publicou um estudo aprofundado sobre as reformas do ensino nos anos setenta, Mais Vale Cedo do que Nunca, e em subtítulo “Por uma escola diferente no Portugal de 70 | Duas medidas inovadoras e as suas histórias”.
Esta obra teve como objetivo analisar dois instrumentos de política educativa que se revelaram determinantes na configuração do sistema educativo português, procurando simultaneamente dar visibilidade ao contributo de Rui Grácio no processo de conceção, fundamentação teórica e implementação dessas medidas.
O reconhecimento do seu contributo para a melhoria da escola pública concretizou-se através da atribuição da Ordem de Grande Oficial da Instrução Pública, conferida pelo Presidente da República Jorge Sampaio, em 8 de maio de 2004.
A capacidade de Graça Fernandes em compreender as mudanças no sistema educativo constituiu uma mais-valia para o SPGL. Ao longo dos anos em que desempenhou funções sindicais, manteve-se simultaneamente ativa na docência e na formação de professores. Muitos dos seus formandos recordam, ainda hoje, as suas qualidades humanas, profissionais e atitude cívica, reconhecendo-a como uma orientadora determinante para o seu percurso e desenvolvimento enquanto docentes.
[1] PT/UP-FPCE/ROFER – Rogério Fernandes, 1933-2010, Rogério Fernandes desde que entrou na universidade -1951-55- participou no movimento estudantil e foi eleito para a «Comissão Pró-Associação».
[2] As salas de estudo para adultos, em horário pós-laboral, funcionavam na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal (nas Escadinhas do Duque) .
[3] Ministro da Educação era José Hermano Saraiva.
[4] Irmã de Cardoso Pires
