Nasceu em Aveiro, a 19 de abril de 1939. Estudou em Lisboa e em Coimbra. Foi professora do ensino público durante trinta e sete anos, tendo iniciado a sua carreira em 1970.
Ativa na militância estudantil — foi detida pela PIDE em 1962 — e na militância política ligada ao PCP desde 1963, acompanhou o marido no exílio, em Paris, entre 1962 e 1965. No regresso a Portugal, foi novamente presa pela PIDE, em 1967, e submetida a tortura. Entre 1969 e 1971, integrou a direção da CDE. De 1971 a 1974, fez parte do GEPDES, organização semiclandestina, ou movimento alegal, que, logo após as condições de liberdade criadas pelo 25 de Abril de 1974, deu origem ao atual movimento sindical dos professores, na sua diversidade político-sindical.
Ainda em 1974, e durante três anos, pertenceu à direção do SPGL.
Teve um papel ativo na inovação do ensino da Matemática: foi autora de manuais escolares e de diversas obras nas áreas da Pedagogia e da Didática da Matemática. Publicou também vários livros de memórias da Resistência. Atualmente, integra o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória (NAM) e dinamiza, nas redes sociais, páginas e grupos dedicados à memória do regime fascista.
Autoria: Isabel Cluny
Helena Pato nasceu em Mamarrosa (Aveiro). No final da Segunda Guerra Mundial, mudou-se com a família para Lisboa. Nesse mesmo período, o seu avô paterno (Comendador da Classe do Mérito Agrícola) esteve detido na prisão do Aljube e de Caxias.[1]
Filha de uma professora do ensino primário e de um regente agrícola, ambos com convicções antifascistas, realizou em Lisboa os estudos primários e ingressou, aos dez anos, no ensino secundário no Liceu D. Filipa de Lencastre. Foi durante esse período que desenvolveu um particular interesse pela matemática e pela língua portuguesa, interesse estimulado pelas leituras que o pai lhe recomendava (Pato, 2018, p. 24).
Em 1956, matriculou-se na Faculdade de Ciências (UL). O reduzido entusiasmo pelo modelo de ensino, caracterizado por metodologias pedagógicas que considerava de difícil apreensão (Pato, 2018, p. 31), contribuiu para que direcionasse uma parte significativa da sua atividade para a participação associativa. Entre 1956 e 1958, integrou os corpos diretivos da Associação Académica da Faculdade de Ciências e, entre 1959 e 1960, foi membro do Conselho Fiscal do Cineclube universitário. Aderiu ao MUD Juvenil. Na altura, participou ativamente na divulgação da candidatura de Arlindo Vicente, o que deu origem a um relatório da PIDE sobre as suas atividades, em maio de 1958[2].
No final de 1960, casou com Alfredo Noales[3], que conheceu já na faculdade.
Dois anos depois, a crise académica de 1962, iniciada devido à proibição das celebrações do Dia do Estudante, desencadeou uma forte mobilização estudantil. Seguiu-se uma vaga repressiva que culminou na detenção de cerca de 1.200 estudantes, entre os quais Helena Pato, presa então pela primeira vez.
No contexto da repressão relacionada com a organização do 1.º de Maio de 1962, Alfredo Noales, jornalista, foi forçado ao exílio em França (1962). Um mês depois, Helena Pato juntou-se ao marido. Entre 1963[4] e 1964, deslocou-se várias vezes a Coimbra com o objetivo de concluir a licenciatura em Matemática. De regresso a Paris, aí permaneceu até 1965, ano em que regressou definitivamente a Portugal para acompanhar Alfredo Noales, que estava gravemente doente e que acabaria por falecer a 2 de dezembro de 1965[5]. Nesse ano, passou a ser coautora da página de Ciência do Diário de Lisboa (1965-1968).
Mantendo a atividade militante, em 1966 integrou o grupo fundador da Comissão de Socorro aos Presos Políticos e promoveu também reuniões unitárias com o objetivo de contribuir para a emancipação das mulheres. Esse percurso culminou, em 1969, quando se tornou uma das cinco fundadoras do Movimento Democrático das Mulheres (MDM).
Em 1967, foi de novo detida pela PIDE, submetida a tortura e mantida durante meses na Prisão de Caxias, sempre em regime de isolamento absoluto (Pato, 2018, p. 127 e segs.)[6]. Como não prestou declarações à PIDE, não chegou a ser levada a julgamento por falta de provas.
Após a sua libertação, em 1969, voltou a casar, desta vez com José Tengarrinha, descrito como “um amigo de juventude, um companheiro antifascista de lutas e convívios, um homem que me encantava”. Nesse mesmo ano, ambos participaram na campanha eleitoral da CDE, cujo programa sublinhava a necessidade de valorizar a carreira docente e defendia a criação de sindicatos livres (Pato, 2018, p. 182). Foi neste contexto que começou a ganhar forma a ideia de que os professores, em particular provisórios e eventuais, deveriam organizar-se para defender os seus direitos laborais, dando origem ao GEPDES.
Em 1970[7], após dois anos consecutivos de rejeição da sua candidatura ao ensino público, Helena Pato conseguiu finalmente colocação na Escola Gil Vicente (Pato, 2018, p. 180). Nesse mesmo ano, nasceu o seu primeiro filho e, após um mês de licença de maternidade, regressou à escola. No ano seguinte (Escola Nuno Gonçalves), introduziu nas suas turmas uma metodologia inovadora — “trabalho de grupo com situações problemáticas” —, marcando o início de uma vertente pedagógico-didática que manteria ao longo de toda a sua carreira.
Em 1971, começou a participar nas reuniões do Grupo de Estudos (GEPDES)[8], realizadas na Escola Francisco Arruda. Embora autorizadas pelo diretor, estas reuniões decorriam nos limites da legalidade. O movimento era composto por jovens professores, entre os quais se destacavam António Teodoro, Maria Manuel Ricardo, Elsa Oliveira, Fátima Rodrigues, Eugénia Malheiros, Alda Pereira, Idalino Pacheco, Lucinda Lopes, Carlos Moreira, Adelaide Carvalho, Mário Casais, João Raimundo e Helena Pato. Nas reuniões da Comissão Coordenadora do Grupo de Estudos, Helena Pato defendia as orientações do PCP relativamente à luta dos professores provisórios (PATO, 2018, p. 183).
No ano letivo de 1972, continuava a lecionar na Escola Nuno Gonçalves quando nasceu a sua segunda filha (PATO, 2018, p. 195).
Em fevereiro de 1974, a repressão sobre a luta dos professores intensificou-se, e o despacho da Direção-Geral do Ensino Básico comparava os GEPDES a uma «associação secreta», ameaçando os professores que participassem no movimento com “prisão correcional até seis meses, perda de funções públicas, multa de 2000$00 e suspensão de direitos políticos”.
Apesar das ameaças, os GE prosseguiram a luta pelo “pagamento de férias a todos os professores, por um estatuto que fosse submetido à apreciação da classe e por uma associação de professores que defendesse os interesses da classe e a melhoria do ensino e dos métodos pedagógicos”.[9]
Meses depois, já após o 25 de Abril de 1974, o legado do GEPDES — marcado pela experiência de associativismo docente e pela luta política — revelou-se decisivo, permitindo mudanças significativas nas áreas da educação e do sindicalismo docente.
No dia 2 de maio de 1974, em Lisboa, cerca de 5000 professores acorreram à Escola Manuel da Maia, na sequência de uma convocatória do GEPDES, com o objetivo de eleger a Comissão Instaladora Provisória (CIP) do futuro sindicato. A elevada participação levou à mudança do local da reunião para o Pavilhão dos Desportos, devido à falta de espaço. Entre os eleitos encontrava-se Helena Pato, que, juntamente com outros membros da direção, se empenhou de imediato na procura de uma sede para o novo sindicato. Ainda na primeira semana de maio, uma delegação composta por Helena Pato, Elsa Oliveira, Vítor Faria e Silva e Lucinda Lopes reuniu com representantes da Junta de Salvação Nacional.
Segundo as memórias de Helena Pato, foram dias de trabalho intenso. Um grupo de quinze professores — entre os quais se destacava Fátima Rodrigues —, que continuavam em funções letivas, preparou as eleições para a Comissão Diretiva do Sindicato dos Professores (CDP), realizadas a 19 de julho de 1974. Integrando a Lista A, que obteve cerca de 60% dos votos, Helena Pato manteve-se na direção do sindicato, onde permaneceu por mais três anos.
Os anos de atividade sindical foram acompanhados pelo exercício das funções de presidente da “Comissão de Gestão” da Escola Nuno Gonçalves, eleita por unanimidade por todos os docentes e trabalhadoras da escola. Nessa escola, também foi membro do Conselho Pedagógico durante catorze anos e representante do ensino noturno (1975-1977).
Tinha acabado de concluir o estágio clássico na Escola Nuno Gonçalves (1977-78), integrando o 4.º grupo (Matemática e Ciências da Natureza) e com equivalência para o ensino da Matemática no ensino secundário (Desp. 3/ME/1995), quando foi convidada a integrar a DGEB (1978).
Ao longo de vários anos, elaborou provas de exame de Matemática, a convite da DGEB.
“Nos anos de 1979/80 e 1980/81, orientou estágios do ramo educacional da FCUL em escolas preparatórias — Fernando Pessoa e Delfim Santos; nos anos seguintes, entre 1982 e 1985, orientou a profissionalização em exercício na Escola Nuno Gonçalves.”[10]
Pouco tempo depois, em 1992/93, lecionou a disciplina de Didática no Instituto Superior de Educação (ISEC), nos cursos de bacharelato de formação de professores.
Foi consultora da Texto Editora a partir de fevereiro de 1995 e autora de obras sobre o ensino da Matemática, das quais se destacam Trabalho de Grupo no Ensino Básico (Texto Editora, 1995, 1.ª ed.), a que se seguiram mais sete edições, e o manual escolar para o 9.º ano Dossier de Matemática (Texto Ed.), com quatro edições (1.ª ed. em 2001).
Em 2007, Helena Pato reformou-se do ensino público, e o Agrupamento de Escolas Nuno Gonçalves fez-lhe um louvor publicado em Diário da República (20 de julho de 2007, 2.ª série, n.º 117).
“No momento da sua passagem à situação de aposentação, expresso, em nome da comunidade educativa da EB 2, 3 de Nuno Gonçalves, um público louvor à docente Maria Helena Martins dos Santos Pato, autora de livros e estudos, no âmbito da pedagogia e da didática da matemática, entre outras obras. Inteligente, estudiosa, responsável, com excelentes qualidades profissionais, desempenhou com notável acerto os mais diversos cargos e funções ao longo da sua carreira.
Muito correcta nas relações com os alunos que a respeitam e estimam, pautou sempre a sua acção, enquanto docente de Matemática, por critérios exigentes, assim como foi sempre muito considerada pelos colegas e pessoal não docente, pois possui uma manifesta aptidão para trabalhos em equipa e excelentes qualidades humanas. Pelo exposto, é de toda a justiça enaltecer a ação desenvolvida pela professora Helena Pato, que ao longo de 35 anos de serviço.”
Uma vez reformada e já afastada do PCP desde 1990, por discordâncias da estratégia do partido face às transformações da «Perestroika» e da «Glasnost», manteve intensa intervenção política em movimentos cívicos, como o que se opôs à criação do “Museu de Salazar” ou o que defendeu a criação de um «Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos (1926-1974)». Participou ainda no Projeto Centro de Documentação do Tarrafal, redigindo dezenas de biografias de presos do Campo de Concentração para o livro Tarrafal (Ed. Colibri, 2024).
Ao longo dos últimos 15 anos, tem realizado inúmeras sessões nas escolas sobre a memória da oposição à ditadura do Estado Novo. Desde 2012, dinamiza, nas redes sociais, páginas e grupos pró-memória do regime fascista, nomeadamente ‘Fascismo Nunca Mais!’ e ‘Antifascistas da Resistência’, e é autora de três obras de memórias da Resistência, com destaque para A Noite Mais Longa de Todas as Noites (Ed. Colibri, 2018, cinco edições). Em 2021, publicou Contraluz: contos (Ed. Colibri).
Helena Pato continua, hoje, a afirmar-se como uma referência para todos os que fazem parte do movimento sindical. Destaca-se pela sua capacidade de intervenção em múltiplas dimensões da vida política e social, bem como pelo papel ativo na mobilização da consciência cívica dos docentes. Nas suas frequentes visitas às escolas, onde partilha experiências, revela um entusiasmo constante na promoção da importância da luta sindical.
[1] PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 82, registo n.º 16333
[2] https://www.esquerda.net/artigo/mulheres-de-abril-testemunho-de-helena-pato/48118
[3] Alfredo Noales 1929-1965, dirigente estudantil, aluno de Físico-Químicas, jornalista do República, pertencia ao PCP https://www.esquerda.net/artigo/mulheres-de-abril-testemunho-de-helena-pato/48118
[4] Militou no PCP clandestino, de 1963 a 1974 e depois até 1990.
[5] Ver, PATO, 2018, 177
[6] PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 139, registo n.º 27789
[7] Em 1968 concluiu a licenciatura em Ciências Matemáticas (FCUL).
[8] Data formal 27 de maio de 1970, Escola Preparatória Francisco de Arruda. (PATO; Figueira da Foz, 28 de Abril 2024).
O movimento agregava professores de vários pontos do país que a partir de 1970/71, lutariam pela estabilidade de emprego (84,2% dos docentes eram provisórios ou eventuais e não tinham garantia de emprego, apenas ganhavam durante nove ou dez meses por ano), por um Estatuto próprio e direito de Associação de Professores.
[9] PATO, Grupos de Estudo do Pessoal docente [1970 – 1974] – o dever de Memória, Figueira da Foz, 28 de abril 2024
[10] Também nesses anos (1986 e 1987) coordenou o Suplemento da Educação, do jornal O Diário.
