Adília Maria Sá Andrade Melo é uma professora aposentada cujo percurso acompanha algumas das transformações mais significativas do sistema educativo português na segunda metade do século XX, em particular na Região Autónoma da Madeira. Tendo iniciado a sua atividade docente em 1960, o seu testemunho documenta a precariedade, a ausência de preparação pedagógica estruturada e as assimetrias de género no acesso ao estágio que marcavam o período anterior à Revolução. A sua trajetória evidencia as exigentes condições materiais do ensino, bem como os complexos constrangimentos administrativos da época.Após a Revolução de Abril, Adília Melo participou ativamente no movimento de mobilização cívica e sindical dos docentes madeirenses, integrando episódios emblemáticos como a ocupação do Seminário da Encarnação. A sua intervenção pautou-se pelo contributo na fundação de estruturas sindicais, onde privilegiou a promoção da formação contínua e a dignificação das metodologias de ensino. O seu relato, marcado por uma postura de absoluta discrição e compromisso com a justiça social, constitui um subsídio memorialístico essencial para compreender a evolução do sindicalismo docente na Madeira e a transição da escola para a democracia, reforçando a importância da preservação da memória histórica como parte do legado de resistência e transformação profissional.
Autoria: Nuno Fraga e Sofia Silva
Nasceu em 13 de dezembro de 1940, na Guarda. Professora do ensino secundário, participou no movimento de mobilização docente que se seguiu à Revolução de 25 de Abril de 1974 e esteve ligada aos processos iniciais de organização do sindicalismo dos professores na Região Autónoma da Madeira.
Iniciou a atividade docente em 1960 e fixou-se na Madeira em 1961, integrando uma geração de professores que exerceu a profissão em condições marcadas pela precariedade laboral, pela escassez de infraestruturas escolares e pela insuficiência de formação pedagógica institucionalizada. Pertenceu igualmente à geração de docentes confrontada com fortes desigualdades de género no acesso à profissionalização, num contexto em que as mulheres enfrentavam maiores restrições no ingresso nos estágios pedagógicos.
Nos primeiros anos de docência trabalhou em condições materiais particularmente difíceis, num período de expansão do sistema educativo associado ao prolongamento da escolaridade obrigatória. Lecionou em instalações provisórias, designadamente no antigo «Batalhão», no Funchal, em edifícios que descreveu como profundamente degradados e inadequados ao exercício da atividade docente.
A Revolução de Abril encontrou-a em exercício de funções na Madeira, onde acompanhou o processo de democratização da vida escolar e a crescente mobilização dos professores. Participou em reuniões realizadas na Escola Industrial e Comercial do Funchal, no Liceu Jaime Moniz e no Ateneu do Funchal, integrando o movimento de organização profissional dos docentes madeirenses.
Esteve ligada ao episódio da ocupação do Seminário da Encarnação, uma das ações mais marcantes do período revolucionário na Madeira, desencadeada pela necessidade de criar novos espaços escolares para responder ao aumento da população estudantil. A ocupação contou com a participação de professores, pais e outros setores da sociedade civil, num contexto de intensa mobilização cívica e reivindicação educativa.
Participou igualmente no processo fundador das estruturas sindicais docentes da Região Autónoma da Madeira. Embora recusando qualquer protagonismo pessoal, aceitou integrar a chamada «Lista A» para os órgãos dirigentes do sindicato, figurando como suplente, numa atitude que refletia a sua preferência por formas discretas de intervenção coletiva.
O seu testemunho sublinha as diferenças existentes entre as culturas organizacionais dos diferentes setores docentes. Destacou particularmente o dinamismo dos professores do ensino primário, cuja capacidade de organização e elaboração reivindicativa considerava mais desenvolvida do que a do ensino secundário nos primeiros tempos do pós-25 de Abril.
Ao longo da sua carreira privilegiou sobretudo as dimensões pedagógicas e formativas da ação sindical. Enquanto orientadora de estágio na área das Ciências, atribuiu especial importância à formação contínua de professores, considerando que uma das contribuições mais relevantes do sindicalismo docente emergente consistiu precisamente na promoção de ações de atualização científica e pedagógica, através da colaboração com especialistas e formadores oriundos do continente.
Aposentada desde 2000, tem defendido a necessidade de preservação da memória histórica do sindicalismo docente madeirense, insistindo na importância da conservação de documentos, atas, publicações e testemunhos como parte integrante da história da profissão docente e da democratização da educação em Portugal. A sua trajetória constitui um testemunho particularmente significativo das transformações vividas pelo sistema educativo português na segunda metade do século XX, ilustrando simultaneamente as condições de exercício da profissão docente durante o final do Estado Novo, a mobilização educativa e sindical desencadeada pela Revolução de Abril e o processo de construção de uma escola democrática na Região Autónoma da Madeira.
