Melo, Adília Maria Sá Andrade

Autoria: Nuno Fraga e Sofia Silva

Iniciou a atividade docente em 1960 e fixou-se na Madeira em 1961, integrando uma geração de professores que exerceu a profissão em condições marcadas pela precariedade laboral, pela escassez de infraestruturas escolares e pela insuficiência de formação pedagógica institucionalizada. Pertenceu igualmente à geração de docentes confrontada com fortes desigualdades de género no acesso à profissionalização, num contexto em que as mulheres enfrentavam maiores restrições no ingresso nos estágios pedagógicos.

Nos primeiros anos de docência trabalhou em condições materiais particularmente difíceis, num período de expansão do sistema educativo associado ao prolongamento da escolaridade obrigatória. Lecionou em instalações provisórias, designadamente no antigo «Batalhão», no Funchal, em edifícios que descreveu como profundamente degradados e inadequados ao exercício da atividade docente.

A Revolução de Abril encontrou-a em exercício de funções na Madeira, onde acompanhou o processo de democratização da vida escolar e a crescente mobilização dos professores. Participou em reuniões realizadas na Escola Industrial e Comercial do Funchal, no Liceu Jaime Moniz e no Ateneu do Funchal, integrando o movimento de organização profissional dos docentes madeirenses.

Esteve ligada ao episódio da ocupação do Seminário da Encarnação, uma das ações mais marcantes do período revolucionário na Madeira, desencadeada pela necessidade de criar novos espaços escolares para responder ao aumento da população estudantil. A ocupação contou com a participação de professores, pais e outros setores da sociedade civil, num contexto de intensa mobilização cívica e reivindicação educativa.

Participou igualmente no processo fundador das estruturas sindicais docentes da Região Autónoma da Madeira. Embora recusando qualquer protagonismo pessoal, aceitou integrar a chamada «Lista A» para os órgãos dirigentes do sindicato, figurando como suplente, numa atitude que refletia a sua preferência por formas discretas de intervenção coletiva.

O seu testemunho sublinha as diferenças existentes entre as culturas organizacionais dos diferentes setores docentes. Destacou particularmente o dinamismo dos professores do ensino primário, cuja capacidade de organização e elaboração reivindicativa considerava mais desenvolvida do que a do ensino secundário nos primeiros tempos do pós-25 de Abril.

Ao longo da sua carreira privilegiou sobretudo as dimensões pedagógicas e formativas da ação sindical. Enquanto orientadora de estágio na área das Ciências, atribuiu especial importância à formação contínua de professores, considerando que uma das contribuições mais relevantes do sindicalismo docente emergente consistiu precisamente na promoção de ações de atualização científica e pedagógica, através da colaboração com especialistas e formadores oriundos do continente.

Aposentada desde 2000, tem defendido a necessidade de preservação da memória histórica do sindicalismo docente madeirense, insistindo na importância da conservação de documentos, atas, publicações e testemunhos como parte integrante da história da profissão docente e da democratização da educação em Portugal. A sua trajetória constitui um testemunho particularmente significativo das transformações vividas pelo sistema educativo português na segunda metade do século XX, ilustrando simultaneamente as condições de exercício da profissão docente durante o final do Estado Novo, a mobilização educativa e sindical desencadeada pela Revolução de Abril e o processo de construção de uma escola democrática na Região Autónoma da Madeira.

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