Nasceu em 22 de abril de 1949, nas Caldas da Rainha. Licenciado em História, iniciou a docência em 1970-1971. Após o 25 de Abril, iniciou a atividade sindical, tornando-se sócio do SPGL e delegado sindical entre 1974 e 1977. Em 1977, integrou a Lista B, eleita para a direção do SPGL, e, em 1979, encabeçou novamente a candidatura, da lista B . Posteriormente, dedicou-se à carreira académica e à intervenção política e cultural. Faleceu em 2023.
Autoria: Isabel Cluny e Sandra Escobar
João Serra nasceu a 22 de abril de 1949, nas Caldas da Rainha. Muito jovem dedicou-se à escrita e em entrevista à Gazeta das Caldas1, recordaria: «Em casa dos meus pais e dos meus avós, na aldeia do Carvalhal Benfeito, os jornais eram muito disputados, até porque se vivia num mundo muito fechado».
Aos 14 anos, começou a colaborar na Gazeta das Caldas. Já anteriormente tinha escrito para o Jornal do Fundão, na sequência da participação num concurso de contos. Posteriormente colaborou com O Século, Flama e Vida Mundial, tendo posto fim a essa atividade quando foi colocado, em 1970-1971, como professor no Liceu de Castelo Branco. Pouco depois entre 1971 e 1978, lecionou no Liceu Padre António Vieira, em Lisboa, tendo concluído em 1974, a licenciatura em História, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Antes do 25 de Abril, foi militante da CDE. Após a Revolução, integrou o Movimento de Esquerda Socialista (MES), tendo aderido posteriormente ao Partido Socialista, aquando da eleição de Jorge Sampaio para secretário-geral, em 1989.2
Iniciou a sua atividade sindical em 1974, na escola onde lecionava, tornando-se sócio do SPGL com o n.º 162. Manteve-se como delegado sindical entre 1974 e 1977.
Em 1975, integrou a equipa que, no Ministério da Educação, elaborou os Textos de Apoio destinados aos novos programas de Introdução à Política do ensino secundário.
Nas eleições de junho de 1977, candidatou-se à direção do SPGL pela Lista B, uma lista de composição unitária que reunia diferentes correntes ideológicas, incluindo elementos ligados à CEC, ao PCP, à Fraternidade Operária (FO) e à UDP3. A lista, encabeçada pelo independente João Barroso, viria a ser eleita.
O objetivo da Lista B era tornar o «sindicato mais forte», num contexto em que a direção anterior deixara o sindicato numa situação difícil, tanto do ponto de vista financeiro como organizativo.4 Entre as prioridades da nova direção encontrava-se a mobilização dos professores e a reativação da atividade sindical.
A direção eleita em 1977 iniciou negociações com o Ministério da Educação e Investigação Científica (MEIC). A intransigência do Ministério acabaria, contudo, por conduzir à convocação da primeira greve nacional de professores5. As divergências quanto às formas de luta a adotar acentuaram os desacordos no interior da direção, levando à demissão de vários dos seus elementos, designadamente independentes e membros ligados à CEC e à UDP.
Nas eleições de 1979, a Lista B voltou a candidatar-se, desta vez com João Serra como cabeça de lista para a direção, tendo obtido 34% dos votos, enquanto a vitória coube à Lista A, liderada por António Teodoro, que alcançou 64,6% dos votos.
O período de intervenção sindical de João Serra coincide, assim, com uma fase particularmente intensa de afirmação e disputa no interior do sindicalismo docente, marcada pela consolidação das estruturas sindicais, pela mobilização dos professores e pelo debate em torno das formas de luta.
Posteriormente, João Serra prosseguiu a sua carreira docente no ensino superior, tendo lecionado no ISCTE (1978-79) e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1979-84) e, mais tarde, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1984-89).
A experiência sindical levou-o também a colaborar com o Jornal da Educação.
Contudo, o seu percurso no sindicalismo parece ter terminado nesta fase, uma vez que, posteriormente, passou a dedicar-se sobretudo à docência e a projetos no ensino superior, destacando-se, entre outras iniciativas, pela fundação da Escola Superior de Artes e Design, nas Caldas da Rainha.
Paralelamente, desenvolveu uma intensa atividade política. Em 2004, foi nomeado consultor e, posteriormente, chefe da Casa Civil da Presidência da República, durante o mandato presidencial de Jorge Sampaio (2004). Pelo seu percurso, foi distinguido com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo e com a Ordem da Liberdade.
A sua atividade estendeu-se ainda à investigação e à produção científica, tendo participado e dirigido diversos projetos de investigação e publicado estudos nas áreas da história e do património. Em 2018, assumiu a Cátedra UNESCO «Gestão das Artes e da Cultura, Cidades e Criatividade» e, posteriormente, presidiu ao projeto Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura.
Faleceu em 2023. Numa nota divulgada pela Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa evocou-o como «homem de cultura, professor e historiador».
Notas
1 https://gazetadascaldas.pt/sociedade/a-partir-dos-15-anos-fiz-de-tudo-um-pouco-na-gazeta/
2 Em 1976 fez parte dos órgãos políticos da candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, experiência que repetiu em 1986, com Francisco Salgado Zenha. 20 abril 2023, Expresso, https://expresso.pt/sociedade/2023-04-20-Joao-Bonifacio-Serra–1949-2023–67f7c5b7
3 CEC, Contra a Escola Capitalista/ MÊS; PCP, Partido comunista Português; FO, Fraternidade Operária / UEDS; UDP, União Democrática Popular;
4 BARROSO, João, Escola-Informação (nº120-Abril /Maio de 1996, p.9)
5 MEIC, o despacho nº 9/78 (31 de janeiro) que, considerava a greve de professores ilegal e injustificava as faltas docentes.
