Nasceu em Lisboa, em 1948, e faleceu na Póvoa do Varzim, em julho de 2025.
Iniciou a sua militância no movimento estudantil em 1965, quando frequentava o Liceu D. João de Castro, envolvendo-se desde cedo na oposição ao Estado Novo. Inicialmente próximo dos chamados “católicos progressistas”, viria posteriormente a aderir ao maoísmo, integrando o PCP(r) e depois na UDP.
Começou a lecionar no Ensino Preparatório em 1969 e, após o 25 de Abril, destacou-se como sindicalista docente, tendo participado na primeira comissão sindical da Escola Francisco Arruda. Em 1977, integrou, com Eduarda Dionísio, uma lista unitária que venceu as eleições para a direção do SPGL. Dois anos depois (1979), embora afastado da direção do sindicato, manteve uma participação ativa como delegado sindical.
A partir da década de 1980, dedicou-se à investigação académica na área da Formação de Adultos. Nos anos 90, iniciou a sua carreira docente no Instituto de Educação de Lisboa, onde viria a tornar-se professor catedrático.
Foi um dos sócios fundadores da Associação Abril em Maio e, mais tarde, em 2008, da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio.Foi autor de várias obras sobre educação, entre as quais: A escola: o lugar onde os professores aprendem (1998), Escola e exclusão social; para uma análise crítica da política Teip (2001) e O que é a escola? Um “olhar” sociológico (2005). Em 2025, por ocasião das comemorações dos 50 anos da Revolução, foi publicada a sua autobiografia educativa, intitulada Não Há Morte Para O Vento.
Autoria: Isabel Cluny
Quando Rui Canário nasceu, em 1948, os pais tinham vindo morar para a capital, um ano antes, à procura de melhores condições de vida, deixando para trás a Beira Interior, de onde eram oriundos. O pai encontrou colocação na Carris como operário, e a mãe, pouco tempo depois, empregou-se como porteira num prédio do Campo Grande.
Contrariando o percurso normal dos filhos dos estratos sociais mais desfavorecidos, os pais de Rui Canário optaram por candidatar o filho ao ensino liceal, então praticamente frequentado apenas pelos filhos das elites sociais que aspiravam a estudos superiores (CANÁRIO 2025,31). Aprovado no exame, em agosto de 1959, Rui Canário frequentou o Liceu Camões desde essa data até 1964, altura em que, após os exames do 5.º ano, optou por mudar para o Liceu D. João de Castro, já em discordância com o autoritarismo imposto pelo reitor Sérvulo Correia.
Bom aluno, de “quadro de honra” (CANÁRIO 2025,33), guardou boas memórias das aulas de História lecionadas por João Bénard da Costa, seu professor do 2.º ciclo, cujos métodos pedagógicos o diferenciavam dos outros professores e por quem nutriu amizade ao longo da vida.
Nas suas memórias, Rui Canário recorda que, nos anos 60, a oposição intensificou a sua propaganda; a luta estudantil, nos anos de 1962 e de 1965, ganhou novos contornos; e as guerras de libertação nas colónias eclodiram. A sua vida mudou quando, já no Liceu D. João de Castro, assistiu, por volta de 1965, no Instituto Superior Técnico, a uma reunião da CPA (Comissão Pró-Associação) dos liceus (CANÁRIO, 2025, p. 62). Por essa altura, conheceu aquela que viria a ser a sua primeira mulher, Beatriz Bettencourt, e estabeleceu amizade com novos colegas, relações que se mantiveram até aos anos 70. Foi também nesse período que se ligou a movimentos como o MAR (Movimento de Ação Revolucionária), do qual faziam parte, entre outros, João Bénard da Costa (CANÁRIO 2025, p. 68).
Estudante-trabalhador desde 1966 (ajudante de despachante), casado em 1967 e matriculado no Instituto de Estudos Sociais, em 1968 — local onde se refugiaram alguns dirigentes estudantis expulsos da Universidade de Lisboa —, Rui Canário intensificou a sua militância ao integrar o CMLP (Comité Marxista-Leninista Português), fundado por Rui d’Espiney (CANÁRIO, 2025 p. 72). Em 1969, uma entrevista na Escola Francisco Arruda, com o professor Calvet de Magalhães, permitiu-lhe a colocação como professor do ciclo preparatório, uma vez que era aluno voluntário de História na Faculdade de Letras de Lisboa desde 1968[1]. Foi, aliás, nessa faculdade que se confrontou com os dirigentes associativos devido ao seu “maoísmo” assumido (CANÁRIO 2025, 98).
Pouco tempo depois, no regresso de uma viagem a Paris, viria a ser interrogado pela PIDE, em outubro de 1972. Após uma busca, a sua casa ficou sob suspeita durante algum tempo.
Integrado no corpo docente da Escola Francisco Arruda, recorda esse período como um tempo de aprendizagem pedagógica, com alguns colegas, dos quais destacou o professor de Educação Física, pioneiro na sociologia do desporto, José Esteves (CANÁRIO, 2025, p. 121). Recorda ainda a criação do Grupo de Estudos (GEPDES), cuja figura central considerou ter sido António Teodoro. Ao escrever as memórias que temos citado, Rui Canário reconheceu que nunca aderiu ao movimento docente emergente, por puro “sectarismo” ideológico, sentindo-se obrigado a manter-se à margem de movimentos influenciados pelo PCP (CANÁRIO 2025,136).
Após o 25 de Abril, participou na primeira assembleia sindical de professores, que terá tido lugar no Pavilhão dos Desportos de Lisboa. Na Escola Francisco Arruda, formou, com João Coutinho e Maria Manuel Calvet, a primeira comissão sindical. Foi igualmente em 1974 que, após concluir a licenciatura em História, foi chamado em outubro para cumprir o serviço militar, num período marcado pela agitação do PREC, circunstância que permitiu a sua passagem à disponibilidade pouco tempo depois. Regressou então à Escola Francisco Arruda e, em 1976/77, frequentou o estágio profissional na Escola Preparatória Eugénio dos Santos.
Em 1977, aquando da eleição de uma lista unitária candidata à direção do SPGL — que reunia o pensamento de três correntes político-sindicais ligadas às chamadas “forças de esquerda” do movimento sindical — Rui Canário passou a integrar a direção do Sindicato. A constituição desta lista revelou-se um processo moroso e complexo, marcado por dificuldades de entendimento entre as diferentes correntes; ainda assim, o impasse foi ultrapassado graças à intervenção de Helena Pato (CANÁRIO, 2025, 157). Para além de Rui Canário (UDP), integravam igualmente a direção figuras de destaque como Eduarda Dionísio, pelo MES, e José Magno.
O sindicato desenvolveu então uma “luta” contra as medidas do ministro da Educação, Sottomayor Cardia. Procurou dar mais relevância aos plenários de escola, defender os contratos coletivos de trabalho e democratizar o ensino. Para impor a negociação com o Ministério da Educação, organizou manifestações de rua e abaixo-assinados, culminando na convocação de uma greve para o dia 2 de fevereiro de 1978. O direito à greve por parte dos professores foi, assim, ensaiado pela primeira vez. No final do ano, a proposta de formas de luta da componente mais radical do sindicato — greve às avaliações — foi derrotada em plenário. Pouco tempo depois, houve uma cisão na direção, com a saída dos elementos afetos à “esquerda revolucionária” e de alguns independentes, tendo nessa decisão papel de destaque Eduarda Dionísio (CANÁRIO 2025, 159).
A direção do SPGL manteve-se até novembro de 1978, quando João Barroso, incapaz de obter um compromisso entre as várias correntes, se demitiu. As eleições para a direção do sindicato, em 1979, voltariam a eleger professores que se identificavam com as orientações dos ex-GEPDES.
Para Rui Canário, a saída da direção do SPGL foi o fim do seu “PREC”. Manteve-se, todavia, como delegado sindical na escola onde estava colocado, a Escola Preparatória Pintor Columbano (Seixal).
Referindo-se à sua atividade sindical, anos mais tarde, Rui Canário considerou-a como “um fator de lenta erosão das minhas convicções ideológicas no que diz respeito à Tutela do Partido sobre os sindicatos, ao centralismo democrático e à ditadura do proletariado” (CANÁRIO 2025,153). Em suma, as dúvidas ideológicas afastá-lo-iam do PCP(r)e depois da UDP.
Todavia, o interesse pela luta política levou-o ainda a promover uma candidatura à Assembleia da República, com base numa lista unitária da área da “unidade popular”, então subscrita por elementos do MES (CANÁRIO 2025, p. 153). Em 1985, apoiou também a candidatura de Maria de Lurdes Pintassilgo. Progressivamente, porém, o seu afastamento da intervenção política e sindical foi sendo acompanhado por um crescente empenho na prossecução da sua formação académica.
Com efeito, em 1982, uma bolsa do Ministério da Educação permitiu-lhe frequentar, na Universidade de Bordéus II, uma pós-graduação em Ciências da Educação, percurso que culminaria, em 1987, na obtenção do grau de doutor. A área de investigação escolhida centrou-se na educação de adultos e na respetiva formação de professores.
Iniciou então uma colaboração com a Escola Superior de Educação de Portalegre e, entre 1987 e 1992, integrou o Projeto ECO, que reunia equipas de várias Escolas Superiores de Educação, sob coordenação de Rui d’Espinay. Já na década de 1990, Rui Canário ingressou como professor na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, mantendo o seu enfoque na educação de adultos. Tal opção terá estado associada, entre outras razões, às dificuldades vivenciadas pelo pai durante a infância, o qual concluiu a 3.ª classe tardiamente, no âmbito de uma campanha de alfabetização promovida ainda durante o Estado Novo (CANÁRIO, 2025, p. 23–24).
No dia 4 de Agosto de 2025 o Instituto de Educação de Lisboa[2] publicou uma nota de pesar pelo falecimento de Rui Canário reconhecendo a sua atividade académica, intelectual, política, bem como o seu compromisso cívico com o movimento cooperativo, bem como com o sindicalismo docente.
[1] Moreira, Darlinda, conversa com Rui Canário “Agir e compreender o mundo” – contributos para uma visão ampla do ato educativo”, Revista Lusófona de Educação, 45, 2019
[2] https://www.ie.ulisboa.pt/noticia/in-memoriam-rui-canario
