Elisabete da Silva Oliveira é uma figura relevante da educação artística portuguesa da segunda metade do século XX e do século XXI. O seu percurso cruza a pintura, a docência e a formação de professores. Investigadora do planeamento curricular, manteve atividade associativa e sindical.Professora do ensino secundário e universitário, participou na renovação pedagógica do ensino das artes. Manteve atividade sindical no pós-25 de Abril, onde contribuiu para a imagem gráfica e estética do SPZC.
Autoria: Cláudia Gigante
Elisabete Silva Oliveira nasceu em Lisboa, a 7 de julho de 1942. Como pintora, professora, investigadora e autora, teve um percurso singular na educação visual e artística em Portugal. Ao longo da sua carreira docente, contribuiu para a formação de professores, a renovação curricular e a investigação académica. A sua biografia é o exemplo de uma trajetória em que a prática artística, o ensino, o pensamento pedagógico e a participação associativa nacional e internacional surgem sempre estreitamente ligados.
Fez os estudos liceais em Lisboa. Frequentou, até ao 5.º ano, o Liceu D. Filipa de Lencastre e concluiu o 6.º e o 7.º anos no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, na alínea h), que permitia o acesso à Faculdade de Belas-Artes. Em 1960, ingressou na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, no curso de Pintura, concluindo o curso geral, em 1964, e o curso complementar, em 1965, como bolseira da FCG. Em vários testemunhos posteriores, a própria sublinha a importância desse período, tanto pela formação artística como pela consciência crítica que aí desenvolveu acerca do ambiente académico e político de contestação ao Estado Novo.[1]
Depois da formação artística, frequentou Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1965, apresentou-se às provas nacionais de admissão ao estágio pedagógico, realizadas no Porto. Ingressou, então, no estágio do Liceu Normal Pedro Nunes, em Lisboa, onde permaneceu entre 1965 e 1967, e fez o Exame de Estado, tendo como metodólogo Alfredo Betâmio de Almeida. Esse período foi decisivo para a sua formação como docente e para a consolidação de uma visão renovadora do ensino do desenho, afastada dos modelos escolares mais mecânicos, repetitivos e pouco criativos.
De 1 de outubro a 7 de dezembro de 1965, lecionou na Escola Preparatória Nuno Gonçalves, em Lisboa. Apesar da brevidade dessa passagem, recordou-a como uma experiência pedagogicamente fecunda. Na altura, o trabalho desenvolvido com alunos mais novos, no âmbito da docência, celebrando Gil Vicente em colaboração com os professores, escritores e pedagogos Matilde Rosa Araújo e Eduíno de Jesus, foi uma experiência nova. Em 1967, beneficiou de uma bolsa de estudo do Instituto Francês para a Côte d’Azur, experiência que combinou prática artística, estudo de História da Arte e contacto direto com importantes referências da arte moderna europeia, com destaque para Roger Garauoly.
Após o estágio, continuou ligada ao Liceu Pedro Nunes. Em 1969-1970, iniciou um ciclo de colocações em várias escolas do país: passou pelo Liceu Padre António Vieira, em Lisboa, por Faro, por Santarém, por Queluz e, depois, por Coimbra e pelo Liceu D. Pedro V, em Lisboa. Este percurso profissional foi fundamental para a experimentação pedagógica e para a criação de redes profissionais e associativas duradouras.
Elisabete Oliveira evoca com particular nitidez os anos de Faro, Santarém e Queluz. Em Faro, onde lecionou com Maria Luísa Abelha, confrontou-se com uma realidade escolar muito própria, marcada pelo clima, pelo ritmo local e por um contexto educativo diverso do lisboeta. Em Santarém, no ano letivo de 1971-1972, conseguiu uma sala fixa para a lecionação das artes. Em 1974, já fortemente ligada à equipa de Alfredo Betâmio desde a publicação da “Palestra 31” [1968] e da elaboração de novos programas de 1970, ficou encarregada de elaborar os programas de Educação Estética Visual e Geometria Descritiva (2.º e 3.º ciclos) no pós-25 de abril. Em 1975, colaborou também nos programas do 2.º Ciclo de Educação Visual e TEPR (Tecnologias da Expressão e Práticas de Representação).
Um dos aspetos mais importantes da sua ação profissional foi a participação na transformação do ensino do Desenho e da Educação Visual em Portugal. A partir do final dos anos 1960 e ao longo das décadas seguintes, integrou equipas de reflexão, conceção e divulgação curricular que procuravam ultrapassar os velhos modelos baseados na cópia, na geometria rígida e na composição decorativa. Defendeu uma educação visual mais criativa, mais crítica, orientada para a formação integral dos alunos, com influência da Bahaus [1970-], e associada à defesa de uma metodologia de Projeto ligada à envolvente [1975-]. Na altura, foi autora do programa da opção curricular (9.º ano) nacional em Arte/Design.[2]
Em Coimbra, como docente, envolveu-se nos meios associativos docentes (GEPDES) no período que antecedeu o 25 de Abril e nos anos seguintes. Participou no 1.º de Maio de 1974, em Coimbra, com faixas sindicais, sendo a sócia n.º 9 do Sindicato dos Professores da Zona Centro (SPZC). Sobre este período, refere a energia coletiva que permitiu fundar o sindicato logo após a Revolução. Surge ainda a indicação de que cofundou os SPZC.[3]
Entre 1975 e 1976, trabalhou na Escola do Magistério Primário de Coimbra, integrada num grupo docente empenhado na renovação da formação de professores. Durante este tempo, organizou semanas de trabalho em aldeias, semanas culturais, trabalho interdisciplinar, observação educativa em contextos muito diversos e formas coletivas de avaliação particularmente exigentes. Essas experiências foram objeto de uma exposição pública, na Câmara Municipal de Coimbra, destinada a mostrar à cidade a qualidade do trabalho desenvolvido pela escola do magistério, como resposta às críticas depreciativas (Jornal Local) sobre esse tipo de formação.[4]
Passou depois para o Liceu D. Duarte, em Coimbra, em comissão pedagógica, onde lecionou entre 1976 e 1978. Nessa fase, teve um papel importante na implementação do programa de Art and Design, iniciado em 1977-1978, como única autora do programa a lecioná-lo diretamente, o que lhe permitiu observar, avaliar e investigar a sua aplicação real. Este trabalho foi acompanhado pela produção de materiais pedagógicos e por ações de formação de professores, incluindo a criação de coleções de diapositivos e outros suportes visuais capazes de dar às escolas um contacto alargado com pintura, escultura, arquitetura e design, como desenvolvera em 1975, mas com enfoques em forma-função e comunicação visual (Ed. ITE).[5][6]
No período imediatamente posterior ao 25 de Abril, como ativista sindical, desenvolveu a conceção gráfica e estética do sindicato, sendo autora de autocolantes e de cartazes com design mais apelativo.[7]
Em paralelo com a ação sindical e associativa, Elisabete Oliveira procurou também criar espaços de encontro profissional para os docentes da área artística. O seu esforço continuado para promover reuniões, ações de formação e espírito associativo entre professores levou-a a ser cofundadora da APECV — Associação de Professores de Expressão e Comunicação Visual — em 1988, organização de natureza profissional, orientada para a valorização da disciplina, da formação e das condições de ensino. Foi sócia n.º 6, 1.ª vice-presidente, e é atualmente sócia honorária.
Entre 1979 e 1983, uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian permitiu-lhe obter o diploma em Art and Design Education pelo London University Institute of Education e cursar o PhD.[8]
Regressada a Portugal, retomou a investigação e orientou progressivamente a sua carreira para o ensino superior. A partir de 1985, passou a lecionar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, onde permaneceu até maio de 2006, data da aposentação. Lecionou alunos da licenciatura e de mestrado e participou na profissionalização em serviço. Concluiu o doutoramento em Ciências da Educação pela Universidade de Lisboa, em 2005.[9]
No âmbito da sua experiência letiva e da integração das expressões artísticas, desempenhou ainda funções relevantes por convénio da FPCEUL. Entre 1990 e 1995, participou no planeamento curricular e na formação de professores para o Ensino Primário e para a Universidade dos Açores, então em instalação. Em 1990-1991, na ilha Terceira, em Terra Chã, contribuiu para a criação da disciplina de Integração das Expressões no curso de Educação de Infância, com o apoio do Professor Carlos Neto.
A concretização dessa disciplina envolveu a colaboração de professores externos. No primeiro ano, em 1991, no domínio da Educação Visual e do Teatro, colaborou presencialmente José Manuel Melo, da Escola Secundária D. Duarte, de Coimbra, responsável pela área de Teatro, enquanto Elisabete Oliveira assegurou a componente de Educação Visual. No segundo ano, dedicado à Educação Musical e à Educação Física, a primeira área foi orientada por um professor local e a segunda pelo Professor Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana.
Em 2005 e 2006, também por convénio da FPCEUL, elaborou o programa e lecionou Psicopedagogia das Expressões Artísticas na Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora. Em ambos os contextos, manteve a interação entre a Universidade de Lisboa e a Universidade dos Açores e reforçou uma metodologia de trabalho de projeto, ligada à comunidade, designadamente a autarquias e centros culturais.
A dimensão associativa do seu percurso desenvolveu-se em três vertentes principais: sindical, profissional nacional e profissional internacional. Na vertente sindical, foi delegada sindical; autora de grafismos e conferências; e integrou a Comissão Consultiva da Redação da revista O Professor, quase desde o seu início até à sua extinção. Por volta de 1979, passou para o SPGL, onde figura como sócia n.º 7676, mantendo a sindicalização e a colaboração expositiva.
No associativismo profissional nacional, destacou-se mais recentemente: em 19 de abril de 2026, apresentou uma comunicação no Congresso Internacional APECV 38, em Cabeceiras de Basto. Colaborou ainda com outras associações e estruturas ligadas às expressões artísticas e à educação, entre as quais a Associação Portuguesa de Expressão Dramática, a Associação Portuguesa de Educação Musical, o MPIAEPA/MOVEA e a Secção de Educação e Arte da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação.
No plano internacional, foi a primeira portuguesa eleita Conselheira Mundial da InSEA/UNESCO, exercendo três mandatos entre 1988 e 1997, com ações em todos os continentes, exceto a Antártida. Foi também proponente da APECV como ONG da InSEA/UNESCO em Portugal e o seu elo inicial de ligação, tendo-se deslocado a expensas próprias a Glasgow para defender essa proposta, que foi aprovada. Essa valência da APECV manteve-se até ao presente, com ação relevante e reconhecimento internacional, incluindo a presidência mundial da InSEA/UNESCO por Teresa d’Eça e, mais recentemente, a eleição de Ângela Saldanha como Conselheira Mundial.
O seu livro Educação estética visual eco-necessária na adolescência: sete décadas de design curricular em Portugal, publicado pela MinervaCoimbra em 2010 e acompanhado de CD-ROM, atualiza a sua tese de doutoramento.[10][11]
Além da atividade docente e investigativa, podemos consultar inúmeras publicações entre 2011 e 2015 da sua autoria.[12]
Também a sua produção artística e ensaística se prolonga no tempo. Uma fonte académica de 2020 refere, por exemplo, um artigo seu sobre escultores da ESBAL dos anos 1960, revelando a continuidade do seu interesse por história da arte, memória institucional, com a instalação do ExplorEAUL (Exploratória de Educação Artística da Universidade de Lisboa), com documentação de pioneiros de Arte e Educação, projetos escolares emergentes e resistência estética. A permanência no CIEBA após a aposentação, mencionada na entrevista, confirma igualmente a continuidade do seu trabalho de investigação e acompanhamento de projetos escolares e académicos.[13]
Intervenções mais recentes: Comunicação “Educação Visual dos Adolescentes em Portugal. 50 anos de Projetos pela qualidade envolvente, solos de terras e mar”. Congresso APECV, Viseu, a 9 de maio de 2026.
[1] Oliveira, E. S. (2010). Educação estética visual eco-necessária na adolescência: Sete décadas de design curricular em Portugal & CD: Valoração do processo criativo pelo professor. MinervaCoimbra. https://bibliografia.bnportugal.gov.pt/bnp/bnp.exe/registo?1810040=
[2] Oliveira, E. (2013). O exploratório: Referencial da qualidade em Educação-Cultura através das Artes Visuais. Matéria-Prima, 1(2), 30–43. https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/35333/2/ULFBA_mp2_p30-43.pdf
[3] FNE. (s.d.). SPZCENTRO – Sindicato dos Professores da Zona Centro. Recuperado em 29 de maio de 2026, de https://fne.pt/pt/go/sindicatos-spzc
[4] Oliveira, E. S. (2010). Educação estética visual eco-necessária na adolescência: Sete décadas de design curricular em Portugal & CD: Valoração do processo criativo pelo professor. MinervaCoimbra. https://bibliografia.bnportugal.gov.pt/bnp/bnp.exe/registo?1810040=
[5] Oliveira, E. S. (2010). Educação estética visual eco-necessária na adolescência: Sete décadas de design curricular em Portugal & CD: Valoração do processo criativo pelo professor. MinervaCoimbra. https://bibliografia.bnportugal.gov.pt/bnp/bnp.exe/registo?1810040=
[6] Oliveira, E. (2013). O exploratório: Referencial da qualidade em Educação-Cultura através das Artes Visuais. Matéria-Prima, 1(2), 30–43. https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/35333/2/ULFBA_mp2_p30-43.pdf
[7] Oliveira, E. S. (2010). Educação estética visual eco-necessária na adolescência: Sete décadas de design curricular em Portugal & CD: Valoração do processo criativo pelo professor. MinervaCoimbra. https://bibliografia.bnportugal.gov.pt/bnp/bnp.exe/registo?1810040=
[8] Oliveira, E. S. (2004). O desenvolvimento da educação estética visual da pré-adolescência, adolescência e transição a adulto em Portugal (1936–2003) [Tese de doutoramento, Universidade de Lisboa]. Repositório da Universidade de Lisboa. https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/42126/1/ulfp022530_td.pdf
[9] Oliveira, E. S. (2010). Educação estética visual eco-necessária na adolescência: Sete décadas de design curricular em Portugal & CD: Valoração do processo criativo pelo professor. MinervaCoimbra. https://bibliografia.bnportugal.gov.pt/bnp/bnp.exe/registo?1810040=
[10] Oliveira, E. S. (2010). Educação estética visual eco-necessária na adolescência: Sete décadas de design curricular em Portugal & CD: Valoração do processo criativo pelo professor. MinervaCoimbra. https://bibliografia.bnportugal.gov.pt/bnp/bnp.exe/registo?1810040=
[11] MinervaCoimbra. (2011, 26 de abril). Educação estética visual de Elisabete Silva Oliveira [28 de abril] em Lisboa. https://minervacoimbra.blogspot.com/2011/04/educacao-estetica-visual-de-elisabete.html; MinervaCoimbra. (2011, 28 de abril). Educação estética visual eco-necessária na adolescência de Elisabete Silva Oliveira: Apresentação em Coimbra. https://minervacoimbra.blogspot.com/2011/04/educacao-estetica-visual-eco.html
[12] Oliveira, E. (2013). O exploratório: Referencial da qualidade em Educação-Cultura através das Artes Visuais. Matéria-Prima, 1(2), 30–43. https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/35333/2/ULFBA_mp2_p30-43.pdf
[13] Oliveira, E. (2020). Resistência às garras da ditadura e do naturalismo dos escultores José Alberto Pereira, Lourdes Serralha e Luísa Constantina Costa Gomes da ESBAL ’60–’64. Gama, Estudos Artísticos, 8(16), 41–51. https://gama.belasartes.ulisboa.pt/G_v8_iss16.pdf
