Clara Gama Gomes Vasconcelos personifica um percurso no magistério definido pela união indissociável entre a praxis pedagógica de matriz humanista e um ativismo sindical vigoroso na Região Autónoma da Madeira. Ao iniciar o seu caminho em 1972, sob o peso das lógicas remanescentes do Estado Novo, a docente sedimentou uma identidade profissional erguida sobre a “pedagogia do afeto”, bebendo da inspiração libertadora de Paulo Freire. A sua metodologia privilegiou o resgate da autoestima, o combate frontal à exclusão escolar e a cumplicidade com as famílias, pilares que entendia como verdadeiros motores da transformação social por via do ensino.A par da sua intervenção direta junto dos alunos do 1.º ciclo, notabilizou-se por uma conduta sindical marcada pela coragem, enfrentando as precariedades laborais e pugnando pela dignidade da classe perante quadros estatutários penalizadores. A vivência em Moçambique dotou-a de um olhar crítico e comparado sobre os modelos de inspeção e a organização das escolas. Reformada desde 2005, a sua leitura contemporânea encerra uma denúncia severa quanto ao declínio da gestão democrática nos estabelecimentos de ensino, advogando por um associativismo plural e independente. O testemunho de Clara Vasconcelos reflete a resiliência docente e a centralidade da luta pelos direitos laborais na edificação de uma escola pública que humaniza e sustenta a democracia.
Autoria: Nuno Fraga e Sofia Silva
Nasceu a 21 de julho de 1949, no Caniço, concelho de Santa Cruz, Madeira. Professora do ensino primário (1.º ciclo), dirigente sindical e militante da causa da escola pública, participou ativamente na organização do movimento docente madeirense após a Revolução de 25 de Abril de 1974.
Desde a infância manifestou vocação para o magistério, fortemente influenciada pela experiência escolar e por professoras que marcaram o seu percurso formativo. Frequentou o Magistério Primário do Funchal, concluindo a formação pedagógica no início da década de 1970.
Iniciou a carreira docente em 1972, na Escola da Terça de Baixo, em Santa Cruz. Os primeiros anos de exercício profissional decorreram ainda sob o enquadramento institucional do Estado Novo, num contexto marcado pela persistência de práticas escolares seletivas e pela exclusão de alunos considerados «difíceis» ou incapazes de prosseguir os estudos. Desde cedo desenvolveu uma prática pedagógica centrada na valorização dos alunos, na construção da autoestima e na recusa de processos de exclusão escolar.
Entre 1973 e 1975 acompanhou o marido em comissão de serviço para Moçambique, exercendo funções docentes em Nampula, na Escola Roberto Ivens e em estabelecimentos particulares. A experiência africana constituiu uma etapa importante da sua formação profissional, permitindo-lhe contactar com modelos de organização escolar e de inspeção pedagógica que considerava mais colaborativos e formativos do que os existentes em Portugal, bem como com práticas de trabalho coletivo entre docentes.
Após a Revolução de Abril regressou a Portugal e foi colocada no Porto Santo, onde exerceu funções na Escola do Campo de Baixo durante o ano letivo de 1975-1976. Depois de breves passagens por outras escolas da Madeira, regressou definitivamente ao Porto Santo em 1980, permanecendo na mesma escola durante cerca de vinte e cinco anos, até à aposentação em 2005.
Grande parte da sua carreira decorreu sob o regime de «professora agregada», situação que implicava forte precariedade laboral, ausência de remuneração durante os períodos de férias e significativas limitações na progressão profissional. A experiência prolongada dessas desigualdades contribuiu decisivamente para a sua aproximação à atividade sindical.
No Porto Santo destacou-se inicialmente pela divulgação de informação relativa aos direitos profissionais dos docentes e pela mobilização dos colegas para a participação sindical. Tornou-se delegada sindical de escola e, posteriormente, integrou a direção do Sindicato dos Professores da Madeira (SPM), desempenhando funções de representação dos docentes do Porto Santo.
A sua intervenção sindical caracterizou-se pela defesa rigorosa dos direitos profissionais dos professores, pela exigência de fundamentação legal das decisões administrativas e pela recusa de práticas arbitrárias de exercício da autoridade. Participou em ações de protesto e em iniciativas de reivindicação profissional, num contexto em que a consolidação dos direitos laborais docentes ainda se encontrava em curso.
Atribuiu particular importância à aprovação do Estatuto da Carreira Docente de 1990, considerando-o um marco fundamental na valorização da profissão. Manifestou igualmente posições críticas relativamente a posteriores reformas educativas e administrativas, designadamente no que respeita às alterações aos regimes de aposentação e ao enfraquecimento dos mecanismos de gestão democrática das escolas.
A sua conceção pedagógica foi fortemente influenciada pelo pensamento de Paulo Freire, defendendo uma “pedagogia do afeto” assente na valorização dos alunos, na relação de proximidade entre escola e famílias e na convicção de que a educação constitui um instrumento de transformação pessoal e social. Considerava o professor um “arquiteto do futuro”, particularmente no trabalho educativo desenvolvido junto das crianças dos primeiros anos de escolaridade.
Ao longo da carreira destacou-se pela atenção concedida aos alunos em situação de vulnerabilidade social e educativa, desenvolvendo práticas pedagógicas centradas na confiança, no reconhecimento do esforço e na promoção da autoestima como condições essenciais do sucesso escolar.
Após a aposentação, manteve uma intervenção crítica sobre a evolução do sistema educativo, manifestando preocupação relativamente à crescente centralização administrativa, à diminuição dos espaços de participação democrática nas escolas e às consequências das reorganizações escolares na vida das comunidades educativas.
Defendeu um sindicalismo plural e independente, não subordinado a orientações partidárias, e continuou a associar a ação sindical à defesa da escola pública, da dignidade profissional dos docentes e da preservação das conquistas democráticas resultantes da Revolução de Abril. A sua trajetória constitui um testemunho particularmente significativo da condição das professoras do ensino primário na Madeira durante a segunda metade do século XX, das lutas pela profissionalização e valorização docente e do papel desempenhado pelas mulheres na construção do sindicalismo docente regional.
