Nasceu em Salto, concelho de Montalegre, em 1942. Frequentou o Liceu de Viseu e ingressou, em 1960, na Universidade de Coimbra, onde se destacou pela participação na vida associativa e nas lutas académicas. Em 1963, foi convidada a integrar o Partido Comunista Português. Em 1969, participou na campanha da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), denunciando a precariedade laboral dos professores. Esteve na origem dos Grupos de Estudos do Ensino Secundário e Preparatório, movimento que esteve na génese do sindicalismo docente após o 25 de Abril. Foi também uma das responsáveis pela coordenação editorial da revista O Professor, publicação que deu voz às reivindicações e dificuldades dos professores contratados. Após o 25 de Abril de 1974, integrou a Comissão Coordenadora dos Grupos de Estudos e participou no processo de criação do Sindicato dos Professores, sendo candidata pela Lista A à Comissão Diretiva Provisória (CDP). Desenvolveu uma longa carreira docente, assumindo funções de orientação pedagógica e de direção em várias escolas, nomeadamente na Escola Secundária Josefa de Óbidos e na Escola Secundária Emídio Navarro. Manteve, ao longo dos anos, uma intervenção regular na ação sindical, na gestão democrática das escolas e nas lutas pedagógicas. Aposentou-se em 2004. Desde então, dedicou-se à pintura, realizando a sua primeira exposição em 2006..
Autoria: Sandra Escobar e Isabel Cluny
Elsa Oliveira nasceu em Salto, concelho de Montalegre, em 1942, devido às exigências profissionais do pai, engenheiro civil, que trabalhava então nas minas da Borralha. As frequentes deslocações profissionais do pai, que, no período do pós-guerra, trabalhou para as empresas Muniz da Maia e Vaz Guedes, ligadas à construção de barragens, marcaram desde cedo o seu percurso de vida. Durante a infância, frequentou cinco escolas diferentes. Passou pela região do rio Ceira, em Arganil, onde frequentou a primeira classe, numa aldeia onde a sua casa era a única com telhado e onde as crianças tinham de se deslocar a outra povoação para frequentar a escola. Fez a segunda classe em Castelo de Bode, a terceira entre Tomar e Pedrógão Grande e concluiu a quarta classe nas Minas da Urgeiriça. Esta experiência de contacto com diferentes comunidades e condições de vida contribuiu para desenvolver uma profunda consciência das desigualdades sociais. Filha de uma engenheira química e de um engenheiro civil, Elsa Oliveira cresceu num ambiente familiar que lhe proporcionou condições de vida privilegiadas face às que observava nas comunidades onde viveu. Depois da escola primária, frequentou o Liceu de Viseu.
Em 1960, ingressou na Universidade de Coimbra, que viria a considerar a sua “grande escola”. Foi em Coimbra que se envolveu intensamente na vida associativa e política estudantil. Participou, ao lado de Correia de Campos, na secção pedagógica da Associação Académica e esteve envolvida nas lutas académicas que marcaram o início da década de 1960. O forte envolvimento nas greves académicas condicionou o seu percurso escolar, levando-a a realizar apenas duas ou três disciplinas em determinados anos. Terminou o curso em 1964, permanecendo ainda algum tempo em Coimbra para concluir a componente pedagógica. A experiência universitária permitiu-lhe também estabelecer relações de amizade e afinidades políticas com diversas figuras ligadas à oposição e à esquerda académica, entre as quais Manuel Alegre e o professor Orlando de Carvalho. Em 1963, foi convidada a integrar o Partido Comunista Português por Edmundo Fonseca, que viria posteriormente a desertar da tropa e a emigrar para a Suíça, tornando-se mais tarde professor na Universidade de Aveiro. Nesse período, Elsa Oliveira foi seguida pela PIDE durante quatro dias consecutivos. Chegou a pedir à irmã que escondesse propaganda política num galinheiro, procurando evitar que esta fosse encontrada numa eventual rusga policial.
Depois de terminar o curso, mudou-se para Lisboa, onde durante cerca de dois anos sobreviveu através de explicações particulares, até conseguir uma colocação a meio tempo na Escola Secundária Ferreira Borges, em 1967. Em 1969, participou na campanha eleitoral da Comissão Democrática Eleitoral (CDE). Nesse contexto, denunciou publicamente a situação de precariedade vivida por muitos professores, que chegavam a permanecer três ou quatro meses sem receber salário durante as férias letivas. A intervenção na campanha da CDE aproximou-a de outros professores e ativistas que partilhavam a preocupação com a situação profissional dos docentes. Entre eles encontravam-se Manuela Calvet de Magalhães, Ana Malheiro do Vale – uma das proprietárias da Porto Editora – e Ferreira Alves. Apesar das diferentes sensibilidades políticas, havia entre estes professores a convicção de que era necessário organizar uma resposta coletiva à precariedade e à ausência de direitos profissionais.
Foi neste contexto que surgiu a ideia de organizar uma reunião de professores na Escola Francisco de Arruda, graças ao apoio do pai de Manuela Calvet de Magalhães, que era diretor da instituição. Foram publicados anúncios no Diário de Lisboa e n’A Capital, convocando os professores para uma reunião destinada a discutir a sua situação profissional. A iniciativa reuniu mais de uma centena de professores, sobretudo provenientes de Lisboa, Almada, Barreiro e Setúbal. Foi nessa reunião que Elsa Oliveira conheceu António Teodoro, o qual se destacou pelas suas intervenções e capacidade mobilizadora, e com quem viria posteriormente a casar.
A partir de então, começaram a realizar-se reuniões periódicas e a estabelecer-se contactos com professores de diferentes regiões. A rede foi sendo alargada através de contactos universitários e de deslocações a vários pontos do país para apresentar o projeto. António Costa Carvalho e José Gomes Bento tiveram um papel importante na expansão dos Grupos de Estudos do Ensino Secundário e Preparatório no Porto. Os Grupos de Estudos constituíram uma importante experiência de organização coletiva dos professores e estiveram na origem do movimento sindical docente que se consolidaria depois do 25 de Abril. A estrutura organizativa e as redes de contactos construídas durante os anos anteriores à Revolução seriam posteriormente aproveitadas na criação dos sindicatos de professores.
Entre 1970 e 1971, Elsa Oliveira realizou o estágio na Escola Secundária Josefa de Óbidos. No final desse período, foi nomeada orientadora de estágio na mesma escola, função que assumiu em 1972, pouco antes de casar, em dezembro desse ano. Nesse mesmo ano, concorreu a professora efetiva na Escola Técnica de Seia, acabando, contudo, por permanecer destacada na Escola Josefa de Óbidos devido às responsabilidades que assumira na orientação pedagógica. Foi também neste período que Reis Leitão lhe comunicou que o seu nome constava dos registos da PIDE com “carimbo vermelho”, acompanhado da indicação de que “não oferecia segurança ao Estado”.
A sua atividade política e profissional continuava, entretanto, a cruzar-se com a intervenção nos Grupos de Estudos. Uma das dimensões dessa atividade foi a participação na coordenação editorial da revista O Professor. O primeiro número, intitulado Primeiro Caderno, foi publicado em julho de 1971 e procurava dar expressão às dificuldades sentidas pelos docentes, particularmente pelos professores contratados, constituindo também um espaço de reflexão sobre a educação e a condição docente.
Os dois números seguintes foram produzidos de forma artesanal. A publicação assumiu progressivamente um papel relevante na divulgação das reivindicações dos professores e na construção de uma consciência coletiva sobre os seus problemas profissionais. A atividade editorial acabou também por chamar a atenção da PIDE/DGS.
O seu marido, António Teodoro, encontrava-se igualmente sob vigilância policial nas vésperas do 25 de Abril, nomeadamente devido à publicação do opúsculo Professores: que vencimentos?.
Com a Revolução de 25 de Abril de 1974, a experiência acumulada nos Grupos de Estudos foi rapidamente mobilizada para a construção de novas estruturas de representação dos professores.
Poucos dias depois da Revolução, Elsa Oliveira integrou, enquanto membro da Comissão Coordenadora dos Grupos de Estudos, uma delegação que se deslocou à Cova da Moura para reunir com representantes do Movimento das Forças Armadas (MFA). Segundo o relato de Helena Pato, a delegação procurava garantir condições para a instalação da futura sede do sindicato dos professores, que viria posteriormente a funcionar na Rua das Gaivotas (PATO, 2011). Em maio de 1974, participou assim no processo de transformação dos Grupos de Estudos numa organização sindical. Em julho desse ano, integrou a Lista A, candidata à Comissão Diretiva Provisória (CDP) do sindicato, na qualidade de membro suplente.
Após o 25 de Abril, continuou a sua atividade docente na Escola Secundária Josefa de Óbidos, onde foi membro da Comissão Diretiva da escola em 1974. Manteve também as funções de orientadora de estágio até 1977. Em 1980, ingressou na Escola Secundária Emídio Navarro, onde encontrou um grupo de professores de esquerda particularmente ativo no movimento sindical, entre os quais Óscar Soares e Ludgero Leote. Em 1982/83, integrou, como vogal, o Conselho Diretivo da escola, presidido por Óscar Soares. No ano letivo seguinte, 1983/84, quando Óscar Soares deixou a direção para assumir responsabilidades no Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, Elsa Oliveira tomou posse como presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária Emídio Navarro. Ao longo dos anos seguintes, continuou a desempenhar funções de gestão escolar. Em 1998/99, integrou o Conselho Executivo Interino como vice-presidente, juntamente com Luísa Beato e Joaquim Franciosi. Entre 1999 e 2002, voltou a exercer funções de direção, novamente como vice-presidente, num Conselho Executivo presidido por Luísa Beato.
A sua intervenção na vida escolar não se limitou aos órgãos de direção. Integrou quase sempre o Conselho Pedagógico e exerceu funções de delegada de grupo, mantendo uma participação regular nos processos de gestão democrática e de discussão pedagógica das escolas onde lecionou.
Paralelamente à carreira docente, manteve uma ligação continuada à atividade sindical. Exerceu funções de delegada sindical e participou nas lutas sindicais e pedagógicas dos professores. A sua intervenção cruzou-se também com outros movimentos de renovação pedagógica, nomeadamente com figuras ligadas à Escola Moderna e com as reivindicações dos professores do ensino privado. Ao longo de várias décadas, Elsa Oliveira conciliou assim a atividade docente com a intervenção sindical, pedagógica e política, mantendo uma preocupação constante com as condições de trabalho dos professores e com a democratização da escola.
Aposentou-se em 2004, dando início a uma nova etapa do seu percurso, dedicada à pintura. Frequentou aulas de pintura e realizou a sua primeira exposição em 2006.
A sua trajetória caracteriza-se, deste modo, pela ligação entre a intervenção estudantil, a oposição à ditadura, a organização dos professores antes do 25 de Abril e a construção do movimento sindical docente no período democrático. A par da longa carreira como professora e dirigente escolar, destacou-se pela participação na criação dos Grupos de Estudos e pela defesa da dignificação da profissão docente, mantendo posteriormente uma intervenção no domínio da gestão democrática das escolas e da ação sindical.
Bibliografia:
Registo biográfico de Elsa Oliveira n.º 2749, Ministério da Educação.
Entrevista a Elsa Oliveira.
Helena Pato, Já uma Estrela se Levanta. Helena Pato, Editora Tágide, 2011..
